sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma Notícia Boa e Duas Péssimas!

No último dia 7 de abril a Associação dos Amigos do Museu Histórico Francisco Honório de Campos se reuniu para discutir a criação de um cineclube nas dependências do casarão do museu.

O projeto tem como objetivos fundamentais propiciar um novo espaço de lazer para a população jataiense e contribuir com a formação de um público voltado para o denominado “cinema de arte”. Para tanto, a proposta é exibir filmes do circuito alternativo que não encontram espaço nas tradicionais salas de cinemas comerciais e, muito menos, são encontrados nas locadoras.

Após a apresentação do projeto os membros da associação deram os seus pareceres e houve uma unanimidade a favor de sua aprovação. Todos elogiaram a exposição detalhada dos objetivos, justificativa e estratégias de funcionamento do que seria o futuro cineclube. Ressaltaram ainda a importância do cineclube na divulgação do nome do museu junto à população jataiense.

Poucos dias depois de aprovada a criação do cineclube eu soube da informação que o histórico Cine Goiás havia encerrado as suas atividades e o prédio se tornará um templo religioso. O curioso é que na redação do projeto consta o relato desse fenômeno que tem se verificado na maioria das cidades brasileiras.

A lamentável notícia do fechamento do Cine Goiás poderia ter sido minimizada com a aprovação do projeto do cineclube pela Associação Amigos do Museu. Todavia, o entusiasmo dos membros da Associação não teve a reciprocidade da secretária de cultura do município de Jataí que vetou a criação e funcionamento do cineclube nas dependências do Museu Histórico Francisco Honório de Campos.

Vale ressaltar que, ao vetar a criação do cineclube, a secretária de cultura está impossibilitando o recebimento de vários equipamentos eletrônicos: data show, telão, dvd player e caixas acústicas que poderiam ser doadas pelo governo federal, através do Ministério da Cultura.

A política cultural do ministério em relação ao cinema é agir como facilitador na criação de cineclubes nos diversos municípios da federação. Esses equipamentos serão distribuídos, primeiramente, nas cidades que já tem projetos de cineclubes em funcionamento. Portanto, com essa atitude torpe, a senhora Vânia Carvalho, além de prejudicar de maneira ostensiva o movimento cultural de Jataí, fecha as portas da administração municipal para o estabelecimento de uma grande parceria com o Ministério da Cultura.

O que podemos dizer diante de tamanha obscuridade por parte dessa senhora que ocupa o cargo mais importante da cultura em nossa cidade? De minha parte, só posso lamentar que o cargo seja ocupado por uma pessoa tão tacanha em termos culturais.

Também não é pra menos, afinal, foi a própria secretária de cultura que teve a capacidade de vetar a apresentação gratuita em nossa cidade do genial pianista Arthur Moreira Lima, certamente, por não conhecê-lo, agora dá mostras evidentes que desconhece a importância de um cineclube para a cultura de uma cidade.

Sinceramente, só posso acrescentar que estou de luto pela cultura jataiense devido ao fechamento do Cine Goiás e pelo veto da criação do cineclube. Mas principalmente, por termos à frente da secretaria de cultura uma pessoa tão despreparada. Justo a secretária que deveria ser a idealizadora dos grandes projetos culturais em nossa cidade, faz justamente o contrário: impede que a sociedade civil organizada tome a iniciativa. Então, deixemos que esta senhora “culta” continue organizando os seus cursos de “preparação de salada” como grandes eventos culturais.

A propósito, sugiro que atual administração de Jataí realize uma troca na nomenclatura da sua secretaria de cultura. O nome ideal seria: “Secretária do Atraso Cultural”.

Marquinho Carvalho

2 comentários:

Ricardo disse...

Muito triste isso.
...e pensar que o início da minha formação cultural deu-se no Cine Teatro Imperador onde assistí Costa-Gavras, Woody Allen etc...
Além desses filmes incríveis, a trilha sonora da vida na cidade abelha era Chico Buarque, Milton,
Beto Guedes, Pink Floyd...
Hoje quando volto aí para visitar a família fico deprimido com aquele som padronizado de dupla sertaneja, as praças abandonadas,
o cine Imperador que virou uma loja de móveis e agora você diz que o último vai virar uma igreja.
Francamente!
Não bastasse isso, pelo que entendí (e espero estar enganado) a secretaría de "cultura" quer impedir a criação de um cineclube e o Arthur de existir na vida da cidade ? Jataí não merece.
Pensando bem talvez mereça. Porque quem indica a Secretária, foi eleito.
Fosse a jovem geração da cidade merecedora de ouvir o Arthur e terem um cineclube, fariam por onde e esse seu blog estaria entupido de comentários indignados.
Pobre Jatai: Sem cultura e sem UTI.
Boa sorte, força e parabens pela coragem !

Sílvia disse...

Contra a obtusidade dos secretários de cultura, vai aí o manifesto do Sérgio Vaz:

Manifesto da Antropofagia Periférica
Sérgio Vaz

A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.

Do teatro que não vem do "ter ou não ter...". Do cinema real que transmite ilusão.

Das Artes Plásticas, que, de concreto, querem substituir os barracos de madeira.

Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos.

Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.

A Periferia unida, no centro de todas as coisas.

Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.

Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que, armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.

Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.

Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.

Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? "Me ame pra nós!".

Contra os carrascos e as vítimas do sistema.

Contra os covardes e eruditos de aquário.

Contra o artista serviçal escravo da vaidade.

Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

É TUDO NOSSO!