sexta-feira, 28 de março de 2008

Memória "Tombada"


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Na clássica canção Sampa, de Caetano Veloso, há um verso que diz: “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O poeta cantor se refere, obviamente, ao poder do capital moldando as paisagens.

Em Jataí a frase deveria se adaptada: “a estupidez humana que destrói coisas belas”. Refiro-me às constantes destruições do patrimônio histórico de Jataí. Apesar de termos uma lei em nosso município que regulamenta a preservação de nossa memória através da manutenção de casarões antigos e prédios públicos que mantém a sua arquitetura original, verificamos, ano após ano, o desaparecimento desses imóveis.

A maioria dos prédios históricos são particulares e, os seus proprietários, constatando a valorização do terreno, tratam de derrubá-los para conseguir um bom dinheiro com a venda da área. Repito, apesar da lei, que parece ter sido elaborada para “inglês ver”, percebemos que ela é ignorada e os prédios que foram tombados como patrimônio histórico são, literalmente, “tombados”, ou seja, derrubados. A punição aos proprietários que descumprem a lei é irrisória, portanto, incentivam as ações criminosas.

Quando nos deparamos com essas ações que estão destruindo a nossa memória coletiva ficamos bastante desapontados. Persistindo esse processo destruidor, infelizmente, as futuras gerações não terão oportunidade de conhecer as concepções arquitetônicas dos nossos antepassados.

Mas o pior de tudo isso é quando constatamos que a iniciativa da destruição dos monumentos históricos não estão partido somente da iniciativa privada. Lamentavelmente, percebemos que o próprio estado que, deveria ser o guardião da lei e garantir a preservação do patrimônio histórico, torna-se um dos responsáveis pela sua destruição.

Pode ser ainda pior? Como diria o meu amigo Rangel, maranhense: “barco perdido, bem carregado”. Na qualidade de professor, é constrangido que afirmo positivamente a indagação que fiz. Por que faço esta afirmação envergonhado? Ora, vejam vocês que, a escola, que deveria ser o mais forte aliado nessa campanha de preservação de nossa memória, mostrando aos nossos alunos a importância desses monumentos para as futuras gerações, acaba se tornando um dos agentes da destruição do patrimônio histórico.

Foi o que aconteceu no Colégio Marcondes de Godoy. O prédio histórico que fica na rua Rui Barbosa, ao lado da praça Tenente Diomar de Menezes, teve parte do seu muro derrubado para a instalação de uma estrutura tipo “pit dog”. Vale ressaltar que a escola ficou fechada durante vários meses para uma ampla reforma em suas instalações onde foram mantidas todas as características arquitetônicas originais, afinal, o prédio é tombado pelo patrimônio histórico. Foi investido muito dinheiro público para trazer às novas gerações a beleza original do período em que o prédio foi inaugurado. Portanto, a Colégio Marcondes de Godoy, localizado no centro da cidade, tornou-se um cartão postal para os jataienses e um belo exemplo do trabalho humano em favor da preservação de nossa memória.

Agora, numa atitude tosca e desrespeitosa com a comunidade, parte do muro veio abaixo para a instalação de um ponto de comércio em seu lugar. A fachada do edifício, extremamente linda, e que conduzia o nosso olhar e nossa imaginação, como num passe de mágica, para meados do século passado, agora nos arremessa para uma espécie de terrível pesadelo estético, retrato vivo desse famigerado mundo globalizado. Ou melhor, tradução literal da estupidez humana!

Um comentário:

Ricardo disse...

Patética essa "intervençâo" na arquitetura do prédio histórico. Pior que isso, só o descaso da comunidade com desfiguração do conjunto.
Aposto que a maioria dos Jataienses sequer sabem quem foi Marcondes de Godoy e acham aquele quiosque-monstrengo ridículamente incrustrado no prédio tombado, uma coisa supernormaaaal. Tenha dó.