quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A oposição no divã


Por Lúcia Avelar - professora titular de Ciência Política/Instituto de Ciência Política/Universidade de Brasília. Pesquisadora do CNPq. Membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz

As legendas de centro-direita terão de mudar a forma de recrutamento e de organização e apresentar seu programa de governo com mais clareza

"A vitória de Dilma Rousseff tem bases mais sólidas do que parece à primeira vista. Não se deve apenas à popularidade de Lula e ao bom desempenho da economia. Há um realinhamento eleitoral que vem se desenhando desde 1994, o adensamento da sociedade civil organizada, a percepção de que há governos que fazem diferença – para melhor – na vida das pessoas, a emergência de um sentimento de identificação e solidariedade com a coletividade destituída, e de que é possível governar também para ela."

Leia o texto completo no link abaixo retirando do site da Revista CartaCapital

http://www.cartacapital.com.br/politica/a-oposicao-no-diva/print/

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Dilma e a vitória da militância



Por Renato Rovai

Dilma venceu as eleições de ontem com 12 milhões de votos em relação a José Serra. Não é pouco. Mas também não é tanto quanto parece. Não fosse a militância ter assumido a disputa como sua, ao final da primeira semana do segundo turno, e provavelmente a vaca teria ido para o brejo mesmo depois de o PT e partidos aliados terem construído com Lula o governo mais popular da história do país.

Na segunda-feira dia 11, logo depois do debate da TV Bandeirantes a diferença entre Dilma e Serra bateu em quatro pontos no tracking interno do PT. O sinal amarelo, porém, tanto para a militância quanto para a coordenação de campanha já havia ascendido antes, no meio da semana anterior, quando a diferença começou a cair e a sensação era de que tanto o programa de TV de Serra estava melhor quanto como a pauta do segundo turno era ditada por ele, com relevância especial para o tema do aborto, que havia ganhado uma centralidade sem sentido nos debates públicos.

Foi essa sensação que fez com que nas redes sociais e nos blogues os militantes passassem a exigir de Dilma uma postura mais aguerrida no debate da TV Bandeirantes. No sábado e no domingo do debate a pressão foi imensa.

Blogueiros e tuiteiros queriam que ela não deixasse nada sem resposta e que comparasse a gestão tucana e os governos de Lula principalmente em relação à valorização do Estado e aos investimentos sociais. E pediam que Dilma enfrentasse com coragem a questão do aborto.

Na coordenação de campanha havia dúvidas se essa era a melhor estratégia. Um setor preferia uma Dilminha mais paz e amor, que tocasse a bola de lado contando com a enorme popularidade de Lula para chegar a vitória, como se ela fosse inevitável. Outro grupo defendia uma candidata mais firme. E Dilma também não estava satisfeita no figurino de mulherzinha comportadinha e boazinha. Queria enfrentar Serra. Queria deixar claro que era diferente e melhor do que ele. E foi para o debate com sangue nos olhos.

Dilma não poupou o tucano do primeiro ao último minuto do encontro. Fez o que a militância queria e não só mudou a pauta do debate do segundo turno, que migrou de aborto para privatizações, como também encheu de brios seus apoiadores que foram para a rua enfrentar o debate político.

Após o debate, registrei isso num post. Não tenho dúvida de que aquele foi o turning point da campanha – como gostam de dizer os gringos. Ou seja, o momento da virada do segundo turno. Se Dilma não assumisse tal postura no debate da Band, Serra poderia ter virado o jogo na semana que entrava.

Ao demarcar campos, Dilma deu mostras de que se tratava de uma disputa entre dois projetos distintos e que de alguma forma a esquerda e o movimento social progressista só tinham um lado para ficar. Com algumas exceções, foi isso que aconteceu.

Sindicatos, MST, feministas, defensores da democratização da comunicação, blogueiros progressistas, ecologistas sérios, artistas comprometidos, lutadores de todos os setores tornaram as três semanas que separaram o debate da Band do dia de ontem nas mais intensas de uma disputa política desde a redemocratização.

Dilma foi eleita com 12 milhões de votos de diferença. Não fosse o apoio decisivo desses setores e a história poderia ser diferente.

Isso não é ruim. É ótimo. O governo de Dilma terá de dar especial atenção a esses setores, que não tem reivindicações privadas, mas públicas. E de interesse público.

O segundo turno foi ótimo para a futura presidenta da República. Sua vitória vem com marca de povo, de luta social, de projeto democrático, com a força da esquerda.

Dilma terá de fazer um governo que avance nas conquistas já obtidas nos oito anos de Lula. É isso que vai lhe fazer governar junto com quem lhe garantiu a vitória de ontem, a militância.

PS: Agradeço a todos que ajudaram a construir o 48 horas democracia. Foi uma experiência sensacional e que marcou a história profissional deste blogueiro.

*Renato Rovai é editor da Revista Fórum

Dilma, a vitória da esperança

Por Wladimir Pomar

A eleição de Dilma foi uma vitória contra o tradicional machismo herdado do escravismo colonial e do antigo latifúndio. Foi uma vitória contra o conservadorismo e o reacionarismo de uma direita travestida de social-democrata. Foi uma demonstração de que a grande imprensa já tem dificuldade em manipular as mentes e corações do povo.

Mas foi, sobretudo, uma vitória da esperança e da expectativa das camadas populares do povo brasileiro na continuidade e no aprofundamento das melhorias e reformas que lhe interessam. Foi também uma vitória das militâncias petista, democrática e popular, que voltaram às ruas para disputar, no corpo a corpo, os votos dos indecisos e dos enganados. E uma vitória da campanha, que diante da ameaça de derrota, desceu do salto alto e, mesmo atrasada, decidiu travar a disputa política e enfrentar os ataques e a baixaria.

Mais do que todas as campanhas já realizadas pelo PT, a campanha Dilma terá que ser avaliada em profundidade, em especial pelos cenários com que o novo governo e o partido se defrontarão desde já. É significativo que, ao discurso de Dilma, estendendo as mãos à oposição, Serra tenha respondido apenas com um grito de guerra pela “liberdade, pela democracia e pela nação”. Em outras palavras, ele simplesmente sinalizou que não haverá trégua.

A direita brasileira e internacional não se conforma com mais quatro anos de governo de coalizão, dirigido pelo PT. Assim, embora o governo democrático e popular deva adotar uma tática de abertura para negociar, de modo a obter maiorias significativas e consensos em torno dos projetos de grande interesse do país e do povo, não pode nem deve nutrir ilusões de que o PSDB e seus aliados pretendam a mesma liberdade, a mesma democracia e a mesma nação que interessa à esmagadora maioria do povo brasileiro.

A discussão desses temas, que ficaram totalmente abandonados no primeiro turno, e não puderam ser aprofundados no segundo, terão obrigatoriamente que constar da pauta de trabalho do PT e do governo. Temos defendido que, estar na direção do governo não isenta o PT de fazer política. Ao contrário, exige que ele se empenhe ainda mais em conhecer as reivindicações e expectativas das grandes camadas populares e da classe média, tanto as antigas que não foram satisfeitas, quanto as novas, e responder a elas com propostas concretas e os correspondentes apelos de mobilização.

A melhoria das condições de vida de uma parte considerável da população, tendo por base as ações do governo Lula, não são um fim em si mesmo. A elevação do poder de compra suscita agora, nessas camadas populares, a necessidade de ter moradia, saúde, educação, cultura, saneamento básico, transportes e outros serviços públicos. Além, é claro, de manter a oferta dos produtos básicos de alimentação e vestuário a preços acessíveis.

Tudo isso exige altos investimentos e a democratização das ofertas, com a mobilização de amplas forças econômicas e sociais para garantir sua concretização. Essa é uma disputa real em torno dos conceitos de liberdade, democracia e nação, inclusive no imaginário de uma parte da classe média, que se vê ultrajada pela ascensão, mesmo pequena, das chamadas classes C e D.

Se o PT e seus aliados de esquerda não entrarem nessa disputa, que é tanto econômica e social, quanto política e ideológica, a diferenciação entre a liberdade, a democracia e a nação que queremos, e aquelas defendidas pelo PSDB e pela direita que representa, não serão esclarecidas. Na falta dessa diferenciação, continuarão a replicar-se fenômenos como os do Tiririca, derrotas em regiões onde Dilma venceu, mas seus candidatos a governador e a senador perderam, e a emergência de supostas terceiras vias, para mascarar a disputa de projetos diametralmente opostos.

Em outras palavras, apesar dos avanços dos oito anos de governo Lula e da popularidade imensa do presidente, a correlação entre as principais forças políticas em disputa não tiveram uma mudança decisiva. Serra ainda obteve 44% dos votos do eleitorado, o PSDB conquistou os governos de estados importantes como São Paulo, Minas, Paraná, Goiás e Pará, e sua bancada no Senado e na Câmara continua considerável.

Numa visão realista do Congresso, apesar do avanço dos partidos de esquerda, o centro e a direita ainda são majoritários em suas duas casas. A suposição de que Dilma possui o apoio da maioria dos congressistas pode ser verdadeira para a disputa eleitoral, mas certamente não será verdadeira para projetos que firam interesses patrimonialistas e pretendam substituí-los por interesses nacionais e populares, e ampliar os direitos democráticos e as liberdades. Eles certamente encontrarão resistências de todo tipo.

Portanto, o PT precisará libertar-se da ilusão de que teria conquistado aquilo que, em termos militares, chama-se de batalha decisiva. Conquistou uma vitória importante, mas ela o obrigará a uma verdadeira reviravolta em sua concepção atual de fazer política, se quiser avançar mais do que o governo Lula, que é o que se espera do governo Dilma.

O PT não pode continuar acreditando que o fato do governo democrático e popular aplicar políticas que beneficiem as camadas populares significa, de antemão, uma percepção popular de que a melhora de suas condições de vida, como emprego, salários e aumento da renda, são resultados diretos de tais políticas. Tal percepção fica ainda mais nublada na situação, como a brasileira, em que o foco principal é o desenvolvimento das forças produtivas. O que significa, queira-se ou não, uma melhoria ainda maior da lucratividade das empresas e da burguesia e a manutenção das grandes diferenças de renda.

Por não haver compreendido que essa contradição não pode ser abolida administrativamente, mesmo que tivesse ocorrido uma revolução popular vitoriosa no Brasil, uma parte da esquerda transformou-se em oposição ao governo Lula e o acusa, assim como ao PT, de haverem se tornado “capitalistas”.

De outro lado, grande parte da esquerda que apóia o governo, inclusive o PT, se deitou no berço esplendido da enorme popularidade de Lula. Abandonou o trabalho político árduo de discutir tais questões com as camadas populares e a classe média e de elaborar novas propostas de avanço nas reformas que o Brasil necessita, inclusive numa perspectiva socialista.

Desse modo, deixou inclusive que algumas de suas bandeiras tradicionais fossem levantadas como armas de combate contra ela própria. Para complicar ainda mais, acreditou que a burguesia estava satisfeita com o desenvolvimento da economia e viria em bloco no apoio ao candidato que Lula apontasse. E subestimou a capacidade de articulação política do setor burguês de oposição ao governo democrático e popular.

Ou seja, por um lado alimentou ilusões de que a luta de classes acabara e, por outro, foi arrogante em relação ao inimigo. Tais concepções levaram o PT e essa parte da esquerda a não entenderem que as alianças com uma parte da burguesia não significam apenas unidade em torno do desenvolvimento das forças produtivas, mas também luta, com razão e com limite, pela maior participação na política, por melhores salários e melhores condições de trabalho e de vida, e por outras reivindicações populares.

Aquelas concepções também contribuíram para que parte do PT e da esquerda não atentassem para a necessidade de aprender a combinar a defesa do governo democrático e popular com a direção prática das lutas dos trabalhadores e das camadas populares, seja para forçar o governo de coalizão a avançar no atendimento das reivindicações populares e democráticas, seja para forçar a burguesia a dividir parte de seus lucros.

Em outras palavras, aquelas concepções obscureceram a necessidade de praticar unidade e luta, tanto dentro do governo, quanto na sociedade. Se o PT e a esquerda que estão no governo houvessem praticado essa combinação política, pelo menos durante o segundo mandato do governo Lula, as condições políticas para a campanha eleitoral seriam diferentes.

Como não o fez, continuou acreditando que estava totalmente certa e, ainda por cima, cometeu uma série de erros estratégicos e táticos durante a campanha Dilma do primeiro turno. É certo que a superação parcial desses erros no segundo turno levou à vitória. Mas achar que isto resolve os problemas que estão pela frente pode ser um erro ainda mais grave. Principalmente após ouvir o brado de Serra de que a “luta continua”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Foi Bolinha de Papel

Partido Alto Bolinha de Papel - Tantinho da Mangueira e Serginho Procopio

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Galera, eu já narrei aqui no blog a história do cantor e compositor Naire que acaba de ter sua música "Companheiro" na trilha da novela Araguaia da TV Globo. Agora acabo de receber do meu amigo Sidney de Goiânia o link da postagem que ele fez no YouTube com a abertura da novela Araguaia com a trilha original de "Companheiro" com o próprio Naire. Achei super bacana! Ah, só para assegurar os créditos: o Sidney foi a pessoa que me apresentou a música do Naire.

Classe Média - Max Gonzaga e Banda Marginal

O link abaixo apresenta a música "Classe Média" com Max Gonzaga e Banda Marginal. Ele me foi enviado pelo meu amigo Manoel Napoleão que o recebeu do aluno João Victor de Souza Cyrino, aluno dele no Campus Avançado da UFG em Jataí/Goiás. Eu já conhecia a música e achei bastante oportuno postá-la nesse momento da campanha presidencial em que a classe média brasileira está novamente mostrando os seus "medos" e preconceitos dos mais variados. Falando de preconceitos acabei me lembrando da música "Nuna Existiu Pecado" do grupo Barão Vermelho que aborda muito bem esse tema. Então decidi postar também o Barão levando esse rock balada super visceral.

"A rapidez velha do tempo
Revive inquisições fatais
Um novo ciclo de revoltas
E preconceitps sexuais

Por mais liberdade que eu anseie
Esbarro em repressões fascistas
Mas tô a margem disso tudo
Desse mundo escuro e sujo"



Nunca Existiu Pecado
(Roberto Frejat - Guto Goffi)


A rapidez velha do tempo
Revive inquisições fatais
Um novo ciclo de revoltas
E preconceitps sexuais

Por mais liberdade que eu anseie
Esbarro em repressões fascistas
Mas tô a margem disso tudo
Desse mundo escuro e sujo

Não tenho medo de amar
Pra mim nunca existiu pecado
Essa vida é uma só
Nesse buraco negro eu não caio

A esperança é um grande vício
Cuidado com suas traições
E não deixe de cuspir no lixo o gosto amargo das decepções

A humanidade tá um porre amenos
Não aprendeu a respirar
Quebrou pra esquina errada
E avançou os sinais

O dia em que até a Globo vaiou Ali Kamel


O chefe conduz a equipe para a vergonha

Passava das 9 da noite dessa quinta-feira e, como acontece quando o “Jornal Nacional” traz matérias importantes sobre temas políticos, a redação da Globo em São Paulo parou para acompanhar nos monitores a “reportagem” sobre o episódio das “bolinhas” na cabeça de Serra.
A imensa maioria dos jornalistas da Globo-SP (como costuma acontecer em episódios assim) não tinha a menor idéia sobre o teor da reportagem, que tinha sido editada no Rio, com um único objetivo: mostrar que Serra fora, sim, agredido de forma violenta por um grupo de “petistas furiosos” no bairro carioca de Campo Grande.
Na quarta-feira, Globo e Serra tinham sido lançados ao ridículo, porque falaram numa agressão séria – enquanto Record e SBT mostraram que o tucano fora atingido por uma singela bolinha de papel. Aqui, no blog do Azenha. você compara as reportagens das três emissora na quarta-feira. No twitter, Serra virou “Rojas”. Além de Record e SBT, Globo e Serra tiveram o incômodo de ver o presidente Lula dizer que Serra agira feito o Rojas (goleiro chileno que simulou ferimento durante um jogo no Maracanã).
Ali Kamel não podia levar esse desaforo pra casa. Por isso, na quinta-feira, preparou um “VT especial” – um exemplar típico do jornalismo kameliano. Sete minutos no ar, para “provar” que a bolinha de papel era só parte da história. Teria havido outra “agressão”. Faltou só localizar o Lee Osvald de Campo Grande. O “JN” contorceu-se, estrebuchou para provar a tese de Kamel e Serra. Os editores fizeram todo o possível para cumprir a demanda kameliana. mas o telespectador seguiu sem ver claramente o “outro objeto” que teria atingido o tucano. Serra pode até ter sido atingido 2, 3, 4, 50 vezes. Só que a imagem da Globo de Kamel não permite tirar essa conclusão.
Aliás, vários internautas (como Marcelo Zelic, em ótimo vídeo postado aqui no Escrevinhador) mostraram que a sequência de imagens – quadro a quadro – não evidencia a trajetória do “objeto” rumo à careca lustrosa de Serra.
Mas Ali Kamel precisava comprovar sua tese. E foi buscar um velho conhecido (dele), o peritoRicardo Molina.
Quando o perito apresentou sua “tese” no ar, a imensa redação da Globo de São Paulo – que acompanhava a “reportagem” em silêncio – desmanchou-se num enorme uhhhhhhhhhhh! Mistura de vaia e suspiro coletivo de incredulidade.
Boas fontes – que mantenho na Globo – contam-me que o constrangimento foi tão grande que um dos chefes de redação da sucursal paulista preferiu fechar a persiana do “aquário” (aquelas salas envidraçadas típicas de grandes corporações) de onde acompanhou a reação dos jornalistas. O chefe preferiu não ver.
A vaia dos jornalistas, contam-me, não vinha só de eleitores da Dilma. Há muita gente que vota em Serra na Globo, mas que sentiu vergonha diante do contorcionismo do “JN”, a serviço de Serra e de Kamel.
Terminado o telejornal, os editores do “JN” em São Paulo recolheram suas coisas, e abandonaram a redação em silêncio – cabisbaixos alguns deles.
Sexta pela manhã, a operação kameliana ainda causava estragos na Globo de São Paulo. Uma jornalista com muitos anos na casa dizia aos colegas: “sinto vergonha de ser jornalista, sinto vergonha de trabalhar aqui”.
Serra e Kamel não sentiram vergonha.